O Testamento de Morann (“Audacht Morainn”)

Aqui começa o testamento de Morann mac Máin a Feradach Find Fechtnach mac Crimthan Nia Náir. Ele era o filho da filha de Loth mac Derelath dos pictos [Baine]. Sua mãe levou-o em seu ventre depois que as tribos vassalas haviam destruído os nobres de Ériu, exceto Feradach no ventre de sua mãe. Depois disso, ele retornou com exércitos e Morann enviou-lhe este testamento.

Ergue-te, avança,
Ó meu Neire Núallgnáith [“Habituado a apregoar”]:
A virtude da obediência te faz conhecido.
Zelosa a jornada que empreendes:
Proclama, aumenta a verdade.
Justas e duradouras,
Minhas palavras antes de minha morte
Trazem-lhe a virtude da retidão
Que cada soberano deve ter.
Se passares por qualquer outro rei,
Peso-as para a proteção de minha família.

Se fores a um rei,
Corre para Feradach
Find Fechtnach.
Bom, vigoroso,
Governará por longo tempo
No assento da plena soberania.
Expulsará muitas tribos
De ladrões para o mar.
Ampliará sua herança,
Cheio de bravura.
Que ele guarde meu conselho que se segue.
Dize-lhe antes de qualquer outra palavra,
Apresenta-lhe com cada fala esta perene justiça.

Que ele preserva a verdade, ela o preservará.
Que ele engrandeça a verdade, ela o engrandecerá.
Que ele exalte a clemência, ela o exaltará.
Que ele cuide de suas tribos, elas cuidarão dele.
Que ele ajude suas tribos, elas o ajudarão.
Que ele conforte suas tribos, elas o confortarão.

Dize-lhe: é por meio da verdade do soberano que pragas e terríveis raios são afastados do povo.
É por meio da verdade do soberano que este avalia grandes tribos e grandes riquezas.
É por meio da verdade do soberano que este assegura a paz, a tranquilidade, a alegria, o bem-estar, o conforto.
É por meio da verdade do soberano que este rapidamente envia grandes exércitos às fronteiras de vizinhos hostis.
É por meio da verdade do soberano que cada herdeiro crava o pilar de sua casa em sua justa herança.
É por meio da verdade do soberano que se saboreia a fartura das grandes árvores frutíferas de extensas florestas.
É por meio da verdade do soberano que é mantida a produção de leite do numeroso gado.
É por meio da verdade do soberano que há abundância de todo grão alto e farto.
É por meio da verdade do soberano que uma profusão de peixes nada nos rios.
É por meio da verdade do soberano que belas crianças são geradas.

Dize-lhe: uma vez que ele é jovem, seu governo é jovem.

Que ele observe o cocheiro de uma velha carruagem. Pois aquele que dirige uma roda antiga não dorme. Olha para frente, olha para trás e para a direita e para a esquerda.

Ele observa, defende, protege, de forma a não romper por descuido ou ímpeto os aros das rodas que sob ele correm.

Dize-lhe: que ele não enalteça juiz algum, a menos que conheça os verdadeiros precedentes legais.

É por meio da verdade do soberano que todo homem de arte obtém a coroa do conhecimento. Depois disso, ele se sentará para ensinar a boa lei à qual se tem sujeitado.
É por meio da verdade do soberano que as fronteiras de cada verdadeiro senhor expandem-se de modo a cada vaca alcançar o fim de seu pasto.
É por meio da verdade do soberano que cada peça de roupa é obtida para ser admirada pelos olhos.
É por meio da verdade do soberano que cercados de proteção para o gado e para todos os demais bens ampliam-se.

É por meio da verdade do soberano que três imunidades contra o abuso em cada asssembleia protegem todo senhor contra os conflitos da discórdia durante seu magnânimo governo. A primeira imunidade são as corridas de cavalos nas assembleias. Sua segunda imunidade é abrigar uma foça militar. A terceira imunidade é a regalia da taverna com amigos e a grande fartura de rodadas de hidromel, onde o tolo e o sábio, conhecidos e estranhos embriagam-se.

Dize-lhe: que ele não tinja de vermelho muitos vestíbulos, pois o derramamento de sangue é uma destruição inútil de todo preceito e da proteção de qualquer família para o governante.

Dize-lhe: que ele não ofereça nenhum mútuo préstimo que lhe seja obrigatório, que ele reforce qualquer vínculo a que tenha de comprometer-se, que ele livre sua face da vergonha por meio das armas em batalha contra outros territórios, contra os juramentos deles, contra suas defesas.

Dize-lhe: que ricos presentes ou grandes tesouros e lucros não o ceguem ao fraco em seus sofrimentos.

Dize-lhe: que ele avalie as criações do criador que as fez tal como foram feitas, pois nada que ele não julgar consoante seus benefícios não lhes dará completo aumento.

Que ele avalie a terra por seus frutos.
Que ele avalie o teixo por seus artigos bem feitos.
Que ele avalie o gado por seu renome nas feiras de inverno.
Que ele avalie a produção e laticínios por seu crescimento.
Que ele avalie as plantações de cereais por sua altura.
Que ele avalie os rios pela pureza de suas águas.
Que ele avalie o ferro por suas qualidades nas disputas das tribos.
Que ele avalie o cobre por sua firmeza e força e espessos artefatos.
Que ele avalie a prata por sua durabilidade e valor e alvos produtos.
Que ele avalie o ouro por seus admiráveis ornamentos exóticos.
Que ele avalie o solo por seus trabalhos de onde o povo pode pretender frutos.
Que ele avalie os carneiros por sua lanugem que é escolhida para as vestes do povo.
Que ele avalie os porcos pela gordura de seus lombos, pois é libertadora da desonra de cada face.

Que ele avalie os pelotões de guerreiros que acompanham um verdadeiro senhor, pois o governo de seu séquito pertence a cada rei; nada que ele não julgar de acordo com suas vantagens não os convocará com total proveito.
Que ele avalie pessoas que não são livres e grupos servis; que sirvam, que forneçam suprimentos, que avaliem, que o deem em retribuição aos legítimos dons do soberano.
Que ele avalie anciãos nas posições de seus ancestrais com abundantes benefícios de consideração.
Que ele avalie pais e mães com benefícios de apoio e zelosa perseverança.
Que ele avalie a paga de cada artífice pelos fortes produtos e objetos bem feitos.
Que ele avalie o direito e a justiça, a verdade e a lei, o contrato e regulamento de cada regente legítimo em relação a todos os seus clientes.
Que ele avalie o adequado preço da honra de cada categoria de homens livres e da nobreza.
Tenho falhado, sou obrigado a corar.

Ergue-te, avança,
Ó meu Neire Núallgnáith.
A Feradach Find Fechtnach,
Anuncia-lhe o apogeu de minhas palavras.

A escuridão leva à luz,
A aflição leva ao júbilo,
Um imbecil leva a um sábio,
Um tolo leva um douto,
Um servo leva a um homem livre,
A inospitalidade leva à hospitalidade,
A avareza leva à generosidade,
A mesquinhez leva à liberalidade,
A fúria leva à serenidade,
O motim leva à obediência,
Um usurpador leva a um verdadeiro senhor,
O conflito leva à paz,
A falsidade leva à verdade.

Dize-lhe: que ele seja compassivo, justo, equitativo, escrupuloso, constante, generoso, hospitaleiro, honrado, equilibrado, benéfico, habilidoso, honesto, firme, eloquente, imparcial.

Pois há dez coisas que aniquilam a injustiça de cada soberano. Guardai-vos de não as cometerdes, cuidado com tudo, ó governantes! Proclama as dez que indico: ordem e mérito, fama e vitória, descendência e parentes, paz e vida longa, boa sorte e muitas tribos.

Dize-lhe: ele pode morrer, ele morrerá; ele pode partir, ele partirá; como ele tem sido, como ele será, tal é o que se declarará. Ele não é um soberano a não ser que realize esses feitos.

Dize-lhe: há somente quatro soberanos. O soberano verdadeiro e o soberano astuto, o soberano de ocupação com exércitos e o soberano-touro.

O soberano verdadeiro, em primeiro lugar, inclina-se a toda boa coisa. Sorri com a verdade ao ouví-la, exalta-a quando a vê. Pois aquele cuja existência não a glorifica com bençãos não é um soberano verdadeiro.

O soberano astuto defende fronteiras e tribos, estas lhes entregam seus valores e tributos.

O soberano da ocupação com exércitos do exterior: suas forças vão embora, desconsideram suas necessidades, pois um homem próspero não se volta para fora.

O soberano-touro golpeia e é golpeado, repele e é repelido, erradica e é erradicado, persegue e é perseguido. Contra ele sempre há mugidos com chifres.

Ergue-te, avança,
Ó meu Neire Núallgnáith.
A Feradach Find Fechtnach,
Um nobre, poderoso soberano,
A cada governante que em verdade governa.
Que ele mantenha minhas palavras,
Estas conduzi-lo-ão à vitória.
Meço-as para a proteção da minha família.

Sou obrigado. Aqui termina.

Fonte: “Livro de Leinster” (Lebhar Laighneach), antigamente conhecido como “Livro de Nuachongbáil” (Lebar na Núachongbála). Irlanda, séc. XII EC.

Tradução: Bellou̯esus Īsarnos

Comentário

Os textos sapienciais da tradição irlandesa (como “O Testamento de Morann”, “As Instruções de Cormac”, “A Instrução Verbal de Cúchulainn” e “A Instrução a Cúscraid”) pertencem a um gênero chamado Tecosc(a) Ríg (“Ensinamento[s] do Rei”) na literatura irlandesa. São mais conhecidos pela expressão latina Speculum Principis/Principum (“Espelho do Príncipe/dos Príncipes”). O seu objetivo é dar conselhos formais ao rei a respeito da sua conduta pessoal e do cumprimento dos seus deveres oficiais como governante.

O “Testamento de Morann” (Audacht Morainn) é um dos textos mais famosos de toda a produção literária do período irlandês antigo. Chegou aos dias de hoje em quatro recensões (num total de onze cópias manuscritas, o que demonstra a sua importância), das quais a mais antiga foi datada de ca. 700 EC. Traz uma longa série de instruções morais, proverbiais e comportamentais oferecidas por Morann ao jovem rei Feradach Find Fechtnach, sendo considerado uma das principais fontes vernaculares a detalhar a ideologia medieval irlandesa sobre a realeza.

Morann é um juiz lendário, reverenciado por sua sabedoria e devoção à justiça, reconhecido, mesmo séculos depois da sua época (ca. séc. I AEC), como o mais competente jurisconsulto e comentarista das leis. De acordo com os “Anais dos Quatro Mestres” [Os “Anais dos Quatro Mestres” (Annála na gCeithre Máistrí) ou “Anais do Reino da Irlanda” (Annála Ríoghachta Éireann) são uma compilação de crônicas da história irlandesa medieval. Suas entradas têm início com o Dilúvio (datado em 2242 AEC) e vão até 1616 EC], Morann era filho de Cairbre Cinn Chait (“Cabeça de Gato”), que usurpou o trono da Irlanda depois de uma revolta das tribos vassalas ter destruído todos os nobres. Contudo, Cairbre teve um reinado desastroso e, com a sua morte, Feradach, o legítimo herdeiro, assumiu o trono e designou Morann como seu juiz principal. Este “Testamento”, no dizer do próprio Morann, contém mo bríathra rem bás (“minhas palavras antes da minha morte”), que, do seu leito de agonizante, ele envia a Feradach por meio de Neire, seu filho.

O “Testamento” mostra uma natureza notavelmente arcaica, pré-cristã, com uma ideologia e estrutura poética que derivam do passado indo-europeu. Seus princípios, voltados ao bem-estar de uma sociedade agrária, devem ser observados pelo soberano a fim de que a sua justiça (fír flathemon) traga a prosperidade a si próprio e ao povo sob o seu governo.

Conforme a ideologia exposta no texto, a legitimidade do rei, alicerçada em sua fír (“justiça”, que também se pode traduzir como “verdade”), tem reflexos não apenas sobre o bem-estar do povo e a estabilidade social, mas também sobre os fenômenos naturais, o cosmos. Assim diz Morann:

Apair fris, is tre ḟír flathemon mortlithi […] márlóchet di doínib dingbatar.

Dize-lhe: é por meio da verdade do soberano (is tre ḟír flathemon) que pragas […] e terríveis raios são afastados do povo.

[…]

Is tre ḟír flathemon ad- manna mármeso márḟedo-mlasetar.

É por meio da verdade do soberano (is tre ḟír flathemon) que se saboreia a fartura das grandes árvores frutíferas de extensas florestas.

A concepção da fír flathemon aproxima-se da ideologia real da Índia antiga [realeza sagrada: o rei como pastor do povo, provedor de alimento, protetor contra perigos, doenças e inimigos externos, dispensador de justiça e assegurador da paz], na extremidade oposta do mundo indo-europeu; comparando-as, podemos considerar a “Verdade do Soberano”, noção ética simples mas potente, força intelectual expressa em palavras e atos, como uma característica da primordial cultura indo-europeia que se transmitiu a sua descendência, sendo notavelmente preservada na Irlanda antiga.

É por meio da Verdade/Justiça do Soberano que pragas e raios são afastados do povo, que se asseguram a paz, a tranquilidade, a alegria, o bem-estar, o conforto, que se mantém a produção de leite do gado, que todo homem de arte obtém a coroa do conhecimento. A concretização da Verdade em suas palavras e ações dá ao soberano o direito de reinar sobre o povo e a terra. A Verdade é o elo que liga o governante à terra e ao seu povo.

Quando falta Verdade ao soberano, rompe-se o vínculo e o governante perde a Soberania, não tendo mais o direito de chefiar. Sem Justiça, o “soberano verdadeiro” (fírḟlaith) torna-se “soberano-touro” (tarbḟlaith), isto é, um lorde que se bate com a agressividade um touro para defender a sua posição contra qualquer um que pareça querer destroná-lo, com a possibilidade de causar uma guerra intestina de consequências desastrosas.

Nesse contexto, cabe questionar qual teria sido a função original a que o Audacht Morainn se destinava. O historiador irlandês Donnchadh Ó Corráin (1942 – 2017) propôs que os textos do gênero Tecosc teriam surgido das cerimônias de entronização em que os reis eram investidos de autoridade. Apesar da importância dessa cerimônia, não sobrevive nenhum relato detalhado da sua realização. Entretanto, como parte do ato, é possível que o ollam filed (“poeta principal”) da dinastia reinante entoasse louvores ao novo rei e recitasse a sua genealogia. Especialmente a genealogia teria o peso de uma carta de direitos e seria prova suficiente de que o novo rei teria direito a governar [Ó Corráin, Donnchadh. Ireland before the Normans. Dublin: Gill and Mac Millan, 1972, pp. 35-36].

Keating [Geoffrey Keating (1569 – 1644, em irlandês Seathrún Céitinn), clérigo, poeta e historiador irlandês] (“Fundação do Conhecimento da Irlanda/História da Irlanda”, Foras Feasa ar Éirinn, II, §1), conta como se dava uma entronização real:

E, desde a vinda de Patrício até a invasão normanda, foram os bispos e os nobres e cronistas que elegeram os reis e senhores; e os títulos que estão em uso agora, como barão, visconde, conde, marquês ou duque, não estavam em voga na Irlanda, mas triath (chefe), tighearna (senhor), flaith (príncipe) ou (rei) e recebiam como sobrenome o dos domínios que possuíam.

Eis que, por ocasião de sua entronização, o cronista adiantava-se levando o livro chamado “Instrução dos Reis”, no qual havia um breve resumo dos costumes e leis do país, e onde se explicava como Deus e o povo recompensariam o fazer do bem e a punição que aguardava o rei e seus descendentes se ele não cumprisse os princípios de justiça e equidade que o “Livro dos Reis” e a “Instrução dos Reis” orientavam a praticar.

Não raro também alguns deles tinham que dar garantes dentre amigos para o cumprimento das leis do país de acordo com a “Instrução dos Reis”, ou então prometer que renunciaram à soberania sem luta, como as Tuatha Dé Danann poderiam ter recebido garantias de Breas, filho de Ealathan, na ocasião de entregar-lhe a soberania da Irlanda.

Era função do cronista colocar uma varinha [slat na ríghe (“bastão da realeza”)] na mão de cada senhor em sua posse; e ao apresentar a varinha, dar a conhecer à população que o senhor ou o rei, a partir de então, não precisaria de armas para manter seu país em submissão, mas que deveriam obedecer à sua varinha como um estudioso obedece a seu mestre. Pois, como o sábio estudioso ama e obedece e é grato ao seu mestre, da mesma forma os sujeitos estão ligados aos seus reis, pois é com a varinha de equidade e justiça que ele dirige seus súditos, e não com a lâmina da arma de injustiça.

A varinha que o ollamh coloca na mão do rei é totalmente branca como um símbolo da verdade, conforme simbolizado pela brancura da vara, uma vez que a brancura é comparada à verdade e o negrume, à falsidade.

A razão pela qual a varinha é reta é significar às pessoas e às tribos que o rei deve ser reto e irrepreensível, sem preconceitos em suas palavras e julgamentos entre amigos e inimigos, entre os fortes e os fracos, como se houvesse uma contenda entre as duas mãos.

A razão pela qual se ordena que a varinha não possua nó ou excrescência, mas seja completamente lisa, é significar ao povo que os senhores estão livres de ser desiguais ou ásperos no trato da justiça e equidade para todos, para amigos e inimigos, de acordo com seus merecimentos etc.

Era em Temuir, na Leic na Riogh [“Pedra dos Reis”], que todos os reis da Irlanda que possuíam o reino de toda a Irlanda, com o consentimento dos ollúna [plural de ollamh] e dos nobres, costumavam ser entronizados antes da Fé, e com o consentimento da Igreja e dos ollúna desde a chegada da Fé.

Embora a credibilidade de Keating como historiador seja atualmente vista com reservas, ele parece merecedor de crédito quanto a costumes sociais e ritos, sobretudo, como ocorre neste caso, quando a sua descrição é corroborada pelo relato de leis e juramentos sendo lidos ao jovem rei Alexander III da Escócia (séc. XII EC) quando da sua entronização:

O juramento de coração foi explicado ao jovem rei em latim e em francês. Depois que fora colocado sobre a pedra fatal, um seanachie [“portador do conhecimento tradicional”, um historiador ou conhecedor das velhas tradições] gaélico aproximou-se dele, no modo simples dos velhos tempos; e, na ausência de arautos, repetindo a sua genealogia, o seanachie pronunciou sua benção na língua do seu país, Benach de Re Albanich, Alexander, Mac-Alexander, Mac-William, Mac-David, Mac-Malcolm [Chalmers, George (antiquário e escritor político escocês, 1742 – 1825). Caledonia or an Account, Historical and Topographic, of North Britain. Londres: Cadell & Davies, 1807, v. 1, p. 639].

Elementos comuns aos dois relatos são 1. a recitação de um speculum/tecosc ao rei, 2. realizada por um representante das mais veneráveis tradições do país (ollam filed, “poeta principal”, seanachie, “historiador”). Antes da cristianização, essa função teria incumbido aos filid, “poetas” (aos druid, “druidas”, possivelmente) e aos uaisle (“nobres”). Com a chegada da nova fé, permaneceram os poetas, junto a representantes da Igreja Católica.

Usando essas informações (e um pouco de imaginação), é possível reconstruir a cerimônia de entronização real em cinco partes:

1ª. O fili (ou druí) estabelece a legitimidade do rei pela recapitulação da sua genealogia;
2ª. O fili (ou druí) confirma a adequação do rei para governar pela recitação dos seus feitos pessoais;
3ª. O futuro rei jura o cargo após a leitura de um speculum principis/tecosc pelo fili (ou druí);
4ª. O juramento do cargo feito pelo rei é aceito pelo fili (ou druí) e confirmado pelo povo;
5ª. Ocorre a coroação ou investidura formal pela entrega de um bastão branco como símbolo de autoridade.

Dois elementos indispensáveis da cerimônia eram a sua realização num local dedicado especificamente a essa finalidade, seguida pela crech ríg ou “expedição (incursão, pilhagem) real”, por meio da qual o rei demonstraria a sua capacidade para o cargo e adquiriria não somente reputação heroica, mas também a riqueza em gado para exercer o papel de lorde generoso, ou seja, demonstraria valentia como soldado e ganharia meios para conceder hospitalidade [Ó Corráin, Donnchadh,. op. cit., p. 37].

Bellou̯esus Īsarnos

A Morte Trágica dos Filhos de Lir (“Oidheadh Chloinne Lir”)

Aconteceu que os cinco reis de Ériu encontraram-se para decidir quem possuiria a suprema realeza sobre eles e o rei Lir de Síd Fionnachaidh [Monte Encantado da Colina do Campo Branco] esperava que certamente fosse ele o escolhido. Quando os nobres reuniram-se para deliberar, escolheram como rei supremo a Bodhbh Dearg, filho do Dagda, pois seu pai fora um grande druida e era ele o mais velho dos filhos de seu pai. Lir, porém, deixou a assembleia dos reis e foi para casa em Fionnachaidh. Os outros reis tê-lo-iam perseguido para feri-lo com lanças e com espadas por não prestar obediência ao homem a quem haviam atribuído suprema autoridade. Mas Bodhbh Dearg, o rei, não quis saber disso e disse: “Ao contrário, pelos laços do parentesco liguemo-lo a nós para que assim haja paz em toda a terra. Digam-lhe que escolha para esposa uma das três donzelas de mais belas formas e melhor reputação em Ériu, as três filhas de Oilell de Aran, minhas próprias três filhas adotivas.”

Desse modo, mensageiros comunicaram a Lir que Bodhbh Dearg dar-lhe-ia uma filha adotiva dentre seus filhos adotivos. Lir agradou-se da ideia e no dia seguinte partiu da Colina do Campo Branco com cinquenta carruagens. E chegou a Loch Deirgeirt [Lago do Olho Vermelho], perto de Cill Dálua [Killaloe, Igreja de Lua] . E, quando Lir viu as três filhas de Oilell sentadas junto à rainha, Bodhbh Dearg, o rei, disse-lhe: “Escolhe uma das donzelas, Lir.” “Não sei”, disse Lir, “qual a mais excelente entre todas elas, contudo a mais velha é a mais majestosa, é a ela que escolherei.” “Se assim é”, disse Dearg, o rei, “Aoibh é a mais velha e ser-te-á dada, se desejares.” Assim, Lir e Aoibh casaram-se e voltaram para Síd Fionnachaidh.

E depois disso nasceram-lhes gêmeos, um filho e uma filha, e chamaram-nos Fionnuala e Aodh. E nasceram-lhes outros dois filhos, Fiachra e Conn. Aoibh morreu quando estes nasceram e Lir lamentou-a amargamente e, a não ser pelo grande amor por seus filhos, teria morrido de tristeza. E Bodhbh Dearg, o rei, entristeceu-se por Lir e disse-lhe: “Por tua causa lamentamo-nos por Aoibh, mas nossa amizade não pode ser quebrada, dar-te-ei a irmã dela, Aoifa, como esposa.” Lir concordou com isso e eles foram unidos e ele levou-a consigo para sua própria casa. No começo, Aoifa sentiu afeição e respeito pelos filhos de Lir e de sua irmã e, sem dúvida, qualquer um que visse as quatro crianças não poderia senão amá-las de todo coração. Lir cuidava amorosamente de seus filhos e estes sempre dormiam em camas diante de seu pai, que costumava levantar cedo cada manhã e deitar-se entre as crianças. Mas então por esse motivo o aguilhão do ciúme atravessou o coração de Aoifa e ela passou a olhar para as crianças com ódio e inimizade. Certo dia, sua carruagem foi-lhe preparada e ela levou consigo nela os quatro filhos de Lir. Fionnuala não estava disposta a ir com ela nesse passeio, pois havia sonhado à noite um sonho avisando contra Aoifa, mas ela não poderia evitar seu destino. E, quando a carruagem chegou a Loch Dairbhreach [Lago dos Carvalhos], Aoifa disse às pessoas: “Matai os quatro filhos de Lir e dar-vos-ei recompensas de todas as que há no mundo.” Eles, porém, recusaram-se e disseram-lhe que seu pensamento era maligno. Ela própria teria então erguido uma espada para destruir as crianças, mas sua própria feminilidade e fraqueza impediram-na. Assim, ela conduziu a carruagem de Lir ao lago para banharem-se e as crianças fizeram como Aoifa lhes dissera. Assim que elas entraram no lago, ela golpeou-as com um bastão druídico de encantamentos e magia e transformou-as em quatro belos cisnes perfeitamente brancos e sobre eles cantou esta canção:

“Fora, filhos do rei, para as ondas bravias!
Que doravante vossos gritos estejam com os
bandos dos pássaros.”

E Fionnuala respondeu:

“És uma bruxa! Conhecemos-te pelo que és!
Podes expulsar-nos de onda para onda,
Mas vez ou outra nos promontórios repousaremos,
Obteremos alívio, tu, porém, punição.
Embora nossos corpos estejam no lago,
Rumo ao lar nossos espíritos voarão por fim.”

E outra vez ela falou: “Designa um fim para a ruína e sofrimento que nos impuseste.” Aoifa riu e disse: “Jamais ficareis livres antes que uma mulher do sul seja unida a um homem do norte, até que Lairgnen de Connacht case-se com Deoca de Mumhan; tampouco terá qualquer um poder para tirar-vos dessas formas. Por novecentos anos vagareis pelos lagos e correntezas de Ériu. Isto apenas hei de conceder-vos: que conserveis vossa fala e não haverá no mundo música igual à vossa, a tristonha música que cantareis.” Isso ela disse porque a tocara o arrependimento pelo mal que havia feito. E ela disse então estes versos:

“Desaparecei de diante de mim, filhos de Lir,
A partir de agora joguetes de ventos sem freio!
Até que Lairgnen e Deoca encontrem-se,
Até que estejais no noroeste da Rubra Ériu.

“Uma espada de traição trespassa o coração de Lir,
De Lir, heroi poderoso.
Muito embora uma espada eu tenha empunhado
Minha vitória machuca-me até o coração.”

Ela então virou seus corceis e foi para o Salão de Bodhbh Dearg, o rei. Os nobres da corte perguntaram-lhe onde estavam os filhos de Lir e Aoifa disse: “Lir não os confiará a Bodhbh Dearg, o rei.” Bodhbh Dearg, contudo, pensou em sua própria mente que a mulher havia cometido alguma traição contra eles e, por essa razão, mandou mensageiros ao Salão de Fionnachaidh.

Lir perguntou aos mensageiros: “Porque viestes?” “Para buscar teus filhos”, disseram eles. “Não chegaram lá com Aoifa?” “Não chegaram”, disseram os mensageiros, “e Aoifa disse que tu não deixaste que as crianças fossem com ela.” Melancolia e tristeza então tomaram o coração de Lir ao ouvir tais notícias, pois ele soube que Aoifa fizera mal às crianças e ele foi para Loch Deirgeirt. E, quando os filhos de Lir viram-no chegar, Fionnuala cantou a canção:

“Bem-vinda a cavalgada dos corceis
Aproximando-se de Loch Deirgeirt.
Uma turma temerosa e feérica
Seguramente procura-nos.

Vamos para a margem, ó Aodh,
Fiachra e Conn de bela figura.
Sob o céu nenhum outro grupo de cavaleiros pode este ser
Senão o rei Lir com os possantes companheiros de sua casa.”

Eis que, como ela dissera, este rei Lir chegou às margens do lago e escutou os cisnes a falar em vozes humanas. E ele falou aos cisnes e perguntou-lhes quem eram. Fionnuala respondeu e disse: “Somos teus próprios filhos, desgraçados por tua mulher, irmã de nossa própria mãe, por obra de sua mente perversa e seu ciúme.” “Quanto tempo durará esse encanto sobre vós?”, disse Lir. “Ninguém há que nos possa libertar antes que a mulher do sul e o homem do norte encontrem-se, antes que Lairgnen de Connacht case-se dom Deoca de Mumhan.”

De Lir e de seus homens subiram então gritos de tristeza, choro e lamentação e ficaram na margem do lago a escutar a enraivecida música dos cisnes até que estes voaram e o rei Lir foi para o Salão de Bodhbh Dearg, o rei. Disse a Bodhbh Dearg, o rei, o que Aoifa fizera a seus filhos. E Bodhbh Dearg lançou seu poder sobre Aoifa e obrigou-a a dizer qual dentre todas as formas da terra ela pensava fosse a pior. Disse ela que seria a forma de um demônio do ar. “É nessa forma que te colocarei”, falou Bodhbh Dearg, o rei, e golpeou-a com um bastão druídico de encantamentos e magia e colocou-a na forma de um demônio aéreo. E sem demora ela voou e ainda está na forma de um demônio do ar e para sempre assim ficará.

Os filhos de Lir, entretanto, continuaram a encantar as tribos dos mac Miledh [filhos de Mil] com a dulcíssima música mágica de suas canções, de modo que jamais foi ouvido em Ériu êxtase comparável a sua música até a chegada do momento designado para que deixassem Loch Deirgeirt. Fionnuala então cantou esta canção de despedida:

“Adeus a ti, Dearg, o rei,
Mestre de todo o saber dos druidas,
Adeus a ti, nossa pai amado,
Lir de Síd Fionnachaidh.

“O tempo assinalado iremos passar
Longe e distantes das habitações dos homens.
Na correnteza do rio Maoil
Amargas e salgadas serão nossas vestes.

“Até que Deoca una-se a Lairgnen.
Vinde, então, ó irmãos de rostos um dia róseos.
Partamos deste Loch Deirgeirt,
Em tristeza separemo-nos do povo que no passado nos amou.”

E depois começaram a voar, voando alto, suavemente, delicadamente, até atingir o Maoil, entre Ériu e Alba. Os homens de Ériu entristeceram-se com sua partida e proclamou-se em toda a Ériu que a partir de então cisne algum deveria ser morto. Eles ficaram então totalmente solitários, totalmente sozinhos, cheios de frio e de tristeza e pesar até uma pesada tempestade cair sobre eles, quando Fionnuala disse: “Irmãos, escolhamos um lugar para reencontrar-nos se a força dos ventos separar-nos.” E eles disseram: “Combinemos encontrar-nos, ó irmã, na Rocha das Focas.” As ondas levantaram-se então e o trovão rugiu, coruscou o relâmpago, a tempestade violenta passou por cima do mar e assim os filhos de Lir foram separados uns dos outros pelo oceano. Porém, eis que sobreveio uma plácida calma após a grande tempestade e Fionnuala viu-se só e cantou esta canção:

“Ai de mim por eu estar viva!
Geladas estão as asas em meus flancos.
Ó meus três amados, ó três amados,
Que se esconderam sob o abrigo de minhas asas,
Até que os mortos retornem aos vivos
Outra vez não nos encontraremos eu e os três!”

E ela voou para o Lago das Focas e logo viu Conn que vinha em sua direção com asas fatigadas e encharcadas e também Fiachra, frio e molhado e abatido e não conseguiam dizer uma só palavra, tão enregelados e fatigados estavam, porém aninharam-se sob as asas dela e disseram: “Se Aodh pudesse vir até nós, completa ficaria nossa felicidade.” Logo, entretanto, viram Aodh vindo em sua direção com sua cabeça enxuta e belas plumas: Fionnuala colocou-o sob as penas de seu peito e Fiachra sob sua asa direita e Conn sob a esquerda e entoaram esta canção:

“Maldosa foi conosco nossa madrasta,
Lançou sua magia contra nós,
Mandando-nos pelo mar para o norte
Na forma de cisnes mágicos.

“Nosso banho na beira da praia
É a espuma das ondas salgadas,
Nossa parte no festim da cerveja
É a salmoura do mar de picos azuis.”

Certo dia, viram uma cavalgada de corceis puramente brancos que vinha em sua direção e, quando chegaram perto, eram os dois filhos de Bodhbh Dearg, o rei, que estivera a procurá-los para levar-lhes notícias do rei Dearg e de Lir, seu pai. “Eles estão bem”, disseram, “e vivem juntos com felicidade, exceto por não estardes com eles e por não saberem aonde fostes desde o dia em que deixastes Loch Deirgeirt.” “Não estamos felizes”, disse Fionnuala e cantou esta canção:

“Nesta noite estão felizes os da casa de Lir,
Abundantes sua carne e vinho.
Porém os filhos de Lir – qual sua sorte?
Como lençois temos nossas penas
E como nossa comida e vinho
A alva areia e a salmoura amarga.
O leito de Fiachra e o abrigo de Conn
Sob a capa de minhas asas no Maoil,
Aodh possui o refúgio de meu peito
e lado a lado assim permanecemos.”

Assim, os filhos de Bodhbh Dearg, o rei, foram ao Salão de Lir e contaram ao rei o estado de seus filhos.

Chegou então o tempo de os filhos de Lir cumprirem seu fado e eles voarem seguindo a correnteza do Maoil até a Baía de Erris e lá permaneceram até o momento de seu destino e então voaram até Síd Fionnachaidh e encontraram-no desolado e vazio, com nada além de recintos sem teto tomados de vegetação e enormes moitas de urtigas – casa nenhuma, nenhuma fogueira, habitação alguma. Os quatro juntaram-se e elevaram três altos gritos de lamento e Fionnuala cantou esta canção:

“Oh, ai de mim! É amargura para meu coração
Ver abandonada a residência de meu pai –
Sem galgos, sem matilhas de cães,
Nenhuma mulher, tampouco reis valentes.

“Não há chifres para beber nem taças de madeira,
não há bebida nos salões radiantes.
Oh, ai de mim! Pelo estado desta casa percebo
Que seu senhor, nosso pai, já não vive.

“Muito sofremos nos anos de nosso vagar
Pelos ventos empurrados, enregelados pelo frio;
Ora chegou de nossas dores a maior:
Na casa em que nascemos já não vive homem algum que nos tenha conhecido.”

Assim, os filhos de Lir voaram para Inis na Gluaire [Ilha da Glória] de Brendan, o santo, e estabeleceram-se no Lago dos Pássaros até o santo Pátraic chegar a Ériu e o santo Maolmhaodhóg vir a Inis na Gluaire.

E, na primeira noite que ele chegou à ilha, os filhos de Lir ouviram o som de seu sino tocando para as matinas, de modo que se levantaram e pularam aterrorizados ao ouvi-lo e seus irmãos deixaram Fionnuala sozinha. “Que é isso, irmãos queridos?”, ela disse. “Não sabemos o que é essa voz lúgubre, terrível que ouvimos.” Então Fionnuala recitou estes versos:

“Escutai o sino do clérigo,
Movei vossas asas e elevai
Agradecimentos a Deus por sua chegada,
Sede gratos por escutá-lo.

“Ele vos libertará da dor,
E retirar-vos-á dos rochedos e pedras.
Vós, ó belos filhos de Lir,
Escutai o sino do clérigo.”

E Maolmhaodhóg desceu até a beira da costa e disse-lhes: “Sois os filhos de Lir?” “Certamente somos”, disseram eles. “Graças a Deus!”, disse o santo. “É por vossa causa que vim a esta ilha além de qualquer outra ilha de Ériu. Vinde a terra e confiai em mim.” Assim, eles foram para a terra e ele lhes fez correntes de alva prata brilhante e colocou uma corrente entre Aodh e Fionnuala e uma corrente entre Conn e Fiachra.

Ocorreu nessa época que Lairgnen era o príncipe de Connacht e estava para casar-se com Deoca, filha do rei de Mumhan. Ela ouvira o relato sobre os pássaros e encheu-se de amor e simpatia por eles e disse que não iria casar-se até que tivesse as aves prodigiosas de Inis na Gluaire. Lairgnen mandou buscá-las ao santo Maolmhaodhóg. Mas o santo recusou-se a dá-las e Lairgnen e Deoca foram ambos a Inis na Gluaire. E Lairgnen foi pegar os pássaros que estavam no altar. Porém, tão logo deitou as mãos sobre eles, seus revestimentos de penas caíram e os três filhos de Lir tornaram-se três velhos enrugados e ossudos e Fionnuala, uma velha magra e murcha sem sangue ou carne. Lairgnen assustou-se com isso e deixou o lugar apressadamente, mas Fionnuala cantou esta canção:

“Vem e batiza-nos, ó clérigo,
Limpa-nos de nossas manchas.
Neste dia vejo nossa cova:
Fiachra e Conn, um a cada lado,
E em meu regaço, entre meus dois braços,
Coloca Aodh, meu irmão formoso.”

Após essa canção, os filhos de Lir foram batizados. E morreram e foram enterrados tal como Fionnuala dissera, Fiachra e Conn um a cada lado e Aodh diante de seu rosto. Uma pilha de pedras foi erguida para eles e seus nomes foram escritos em ogham. E esse foi o destino dos filhos de Lir.

Fonte: Joyce, P. W. (1879). Old Celtic Romances; translated from the Gaelic. London: C. Kegan Paul & Co.

Tradução: Bellou̯esus Īsarnos

Procissões e Circunambulações

1 Procissões

Sulpicius Severus ( ca.?363 — ca. 425 AD), De Vita Beati Martini Liber Unus (“Vida de São

Martinho” [Martinus Turonensis, Martinho de Tours]), Cap. XII.

Accidit autem insequenti tempore, dum iter ageret, ut gentilis cuiusdam corpus, quod ad

sepulcrum cum superstitioso funere deferebatur, obuium haberet: conspicatusque eminus

uenientium turbam, quidnam id esset ignarus, paululum stetit: nam fere quingentorum

passuum interuallum erat, ut difficile fuerit dinoscere quid uideret. Tamen quia rusticam

manum cerneret et agente uento lintea corpori superiecta uolitarent, profanos sacrificiorum

ritus agi credidit: quia esset haec Gallorum rusticis consuetudo, simulacra daemonum

candido, tecta uelamine misera per agros suos circumferre dementia. Levato ergo in aduersos

signo crucis imperat turbae non moueri loco onusque deponere. Hic uero mirum in modum

uideres miseros primum uelut saxa riguisse. Dein, cum promouere se summo conamine

niterentur, ultra accedere non ualentes ridiculam in uertiginem rotabantur, donec uicti

corporis onus ponunt: attoniti et semet inuicem aspicientes, quidnam sibi accidisset, taciti

cogitabant. Sed cum beatus uir comperisset exsequiarum esse illam frequentiam, non

sacrorum, eleuata rursum manu dat eis abeundi et tollendi corporis potestatem. Ita eos et

cum uoluit, stare compulit, et cum libuit, abire permisit.

Bem, aconteceu algum tempo depois do que foi dito acima, que enquanto Martinus estava

viajando, deparou-se com o corpo de um certo pagão, que estava sendo levado à tumba com

rituais funerários supersticiosos. Percebendo à distância a multidão que se aproximava e não

sabendo o que se passava, ficou parado um pouco a observar. Pois havia distância de quase

meia milha entre ele e a multidão, de modo que era difícil descobrir o que realmente seria o

espetáculo que via. No entanto, posto que vira tratar-se de uma reunião de rústicos, e

quando as roupas de linho estendidas sobre o corpo eram sopradas pela ação do vento,

acreditou que certos ritos profanos de sacrifício estavam sendo realizados. Ocorreu-lhe esse

pensamento, porque era costume dos caipiras gauleses, em sua desgraçada loucura,

transportar pelos campos as imagens dos demônios veladas com um manto branco.

Erguendo, portanto, o sinal da cruz frente a eles, ordenou à multidão que não se movesse do

lugar em que se encontrava e que largasse o fardo. Com isso, as criaturas miseráveis de

imediato viram-se rígidas como pedras. Em seguida, como se esforçassem com todos os

esforços possíveis para avançar, porém não eram porém capazes de dar um passo adiante,

começaram a girar da maneira mais ridícula, até que, não conseguindo mais sustentar o

peso, derrubaram descer o cadáver. Estupefatos e olhando perplexos um para o outro, sem

saber o que lhes havia acontecera, permaneceram imersos em pensamentos silenciosos. Mas

quando o homem santo descobriu que eram simplesmente um bando de camponeses

celebrando ritos fúnebres, e não sacrifícios aos deuses, novamente levantando a mão, deu-

lhes o poder de ir embora e de levantar o corpo. Assim, compeliu-os a levantar-se quando

quis e permitiu que partissem quando julgo adequado.

2 Circunambulações

Além disso, Heiricus Autissiodorensis (Heiric d’Auxerre, 841 – 876 EC, “Homeliae per circulum

anni, pars hiemalis”, hom. 24), mostra que houve, pelos cristãos, uma recuperação consciente

e deliberada dos ritos pagãos. Esse autor admite-o involuntariamente ao declarar que “a

religião cristã transformou o costume da purificação, uma vez que, no mesmo dia da

festa da bem-aventurada Maria (a), o povo, o clero e os sacerdotes, com círios e hinos rodeiam

os locais das igrejas, de forma alguma por causa da lembrança de alguma superstição pagã

ou império terrestre, mas em eterna memória do reino celeste […]”.

Essas passagens testemunham alguns ritos da devoção popular gaulesa:

  • Procissões;
  • Os fiéis carregavam a imagem da divindade num andor;
  • A imagem era coberta com um tecido branco;
  • Podiam ser confundidas com uma cerimônia de sepultamento;
  • Eram praticadas ainda pelos camponeses no séc. IV;
  • Havia celebração em homenagem à Rainha do Céu por volta do começo de fevereiro;
  • Circunambulação dos locais de culto como forma de consagração;
  • a presença do fogo como elemento da cerimônia.

a) É a Candelária (02 de fevereiro), festa da Purificação de Maria, dita então Nossa Senhora da

Luz/Candeias; substituiu a celebração de Brigindu/Briganti/Brigit.

O Primeiro Discurso de Taliesin (Priv Cyfarch)

Llyfr Taliesin
O Livro de Taliesin

“Livro de Taliesin”, 1

Um discurso rústico e ardiloso, quando totalmente esclarecido,
O que se deu no começo, é ele treva, é ele clarão?
Ou Adão, quando existiu, em que dia foi criado?
Ou sob a superfície da terra, qual é o alicerce?
Aquele que é legionário não receberá educação.
Est qui peccator em muitas coisas,
Perderá a pátria celestial, a comunhão dos sacerdotes.
Pela manhã ninguém virá
Se cantarem de três esferas.
Anglos e gaélicos,
Que travem eles suas guerras.
De onde vêm noite e dia?
De onde se fará cinzenta a águia?
De onde vem que seja escura a noite?
De onde vem que o pintarroxo seja verde?
A ebulição do mar,
Como não é ela vista?
Pela manhã ninguém virá.
Há três fontes
Na montanha das rosas,
Há uma fortaleza para defesa
Sob a onda do oceano.
Ilusório anfitrião,
Qual é o nome do porteiro?
Quem era o confessor
Do compassivo Filho de Maria?

Tradução: Bellou̯esus Īsarnos

Canção ante os Filhos de Llyr (Kerdd Veib am Llyr)

Vim a Deganwy para contender
Contra Maelgwn, o maior em delitos,
Libertei meu senhor na presença do Distribuidor.

“Livro de Taliesin”, 14

Adorarei o Senhor de toda gente, que espalha o amor,
O soberano de multidões que evidentemente circunda o universo.
Uma contenda no festim por causa de uma bebedeira sem alegria,
Um combate contra os filhos de Llyr em Ebyr Henfelyn.
Vi a tirania do distúrbio e a raiva e a tribulação,
Cintilavam as espadas nos elmos resplendentes,
Contra Brochwel de Powys, que amava minha inspiração.
Cedo, uma batalha na aprazível rota contra Urien,
Caiu ali a nossos pés o sangue na carnificina.
Não será meu trono protegido pelo caldeirão de Carridwen?
Possa minha língua estar livre no santuário do louvor de Gogyrwen.
O louvor de Gogyrwen é uma oferenda que os satisfez
Com leite e orvalho e bolotas de carvalho.
Reflitamos profundamente, antes que seja ouvida a confissão,
Que a morte se está mais e mais aproximando.
Ao redor das terras de Enlli, o Dyfi precipitou-se,
Os barcos erguendo na superfície da campina.
Chamemos por aquele que nos fez
Para que nos proteja da fúria de uma nação estrangeira.
Quando a ilha de Mona for chamada um agradável campo,
Venturosos sejam os de alma gentil, dos saxões tormento.
Vim a Deganwy para contender
Contra Maelgwn, o maior em delitos,
Libertei meu senhor na presença do Distribuidor.
Para mim há três assentos concordantes, harmoniosos,
E até o julgamento com os cantores permanecerão.
Estive na Batalha das Árvores com Lleu e Gwydion,
Eles mudaram a forma das árvores e arbustos fundamentais.
Estive com Bran na Irlanda.
Vi quando Morddwydtyllion foi morto.
Ouço uma reunião à volta dos menestréis
Com gaélicos, demônios e alambiqueiros.
De Penryn Wleth a Loch Reon
São os galeses de uma só alma, audazes heróis.
Três raças, cruéis por natural tendência,
Gaélicos, britanos e romanos,
Criam discórdia e confusão.
E perto dos limites de Prydein, belas suas cidades,
Há uma luta contra os chefes por cima das garrafas de hidromel,
Nos festejos do Distribuidor, que dons me concedeu.
Dádivas notáveis os principais astrólogos receberam.
Perfeito está meu trono em Caer Sidi,
Ninguém que lá esteja será afligido por doença ou velhice.
Manawyddan e Pryderi o sabem.
À volta do fogo, três sussurros diante dele cantará
E ao redor de suas margens estão as torrentes do oceano.
E a fonte fecunda está acima dele,
A bebida é mais doce que o vinho branco.
E quando Te houver adorado, Altíssimo, ante a verde terra
Seja eu encontrado em aliança contigo.

Tradução: Bellou̯esus Īsarnos

A Batalha das Árvores (Kat Godeu)

Quando as árvores foram encantadas,
Na expectativa de não serem árvores,
As árvores sussurraram suas vozes
De cordas de harmonia,
As disputas cessaram.

“Livro de Taliesin”, 8

Estas são as estrofes que foram cantadas na “Batalha das Árvores”, ou, como outros a chamam, a “Batalha de Achren”, que foi por causa de uma corça branca e de um cachorro; e eles vieram do Inferno e Amaethon ap Don os trouxe. E, portanto, Amaethon ap Don e Arawn, Rei de Annwn, lutaram. E havia um homem nessa batalha: a menos que seu nome fosse conhecido, ele não poderia ser vencido. E e havia uma mulher chamada Achren no outro lado e, a menos que seu nome fosse descoberto, seu exército não poderia ser vencido. E Gwydion adivinhou o nome do homem e cantou as duas estrofes seguintes:

De cascos firmes é meu corcel impelido pelas esporas;
Os altos galhos do amieiro estão em teu escudo;
Bran és chamado, dos ramos brilhantes.

E assim:

De cascos firmes é meu corcel no dia da batalha:
os altos ramos do amieiro estão em tua mão:
Bran, pelo ramo que carregas,
Amaethon, o bom, prevaleceu.

Numa multiplicidade de formas estive
Antes de assumir aspecto consistente.
Uma espada fui, estreita, matizada:
Acreditarei quando for manifesto.
Uma lágrima fui no ar,
Fui a mais sombria das estrelas.
Uma palavra fui entre letras,
Fui um livro na origem.
Dos faróis fui a luz
Um ano e meio.
Fui uma ponte que se prolonga
Sobre três vintenas de fozes.
Fui um percurso, uma águia fui.
Um barco fui nos mares.
Fui um complacente no banquete.
Uma gota fui num aguaceiro.
Fui uma espada no aperto da mão,
Um escudo fui em batalha.
Fui uma corda numa harpa,
Disfarçado por nove anos
Na água, na espuma.
Fui uma esponja no fogo,
Fui madeira na moita.
Não sou aquele que não cantará
Um combate, embora pequeno.
O conflito na batalha das árvores dos ramos.
Contra o Guledig de Prydein
Passaram ali cavalos principais,
Esquadras cheias de riquezas.
Ali passou um animal com grandes mandíbulas,
Nele havia uma centena de cabeças.
E uma batalha foi lutada
Sob a raiz de sua língua
E há uma outra batalha
No orifício de seu olho.
Um negro sapo desajeitado
Com uma centena de garras.
Uma cobra salpicada com crista.
Por causa do pecado, uma centena de almas
Atormentada será em sua carne.
Estive em Caer Fefenir,
De lá se apressaram pastos e árvores.
Menestréis cantavam,
Bandos de guerreiros perambulavam
Na exaltação dos britanos
Que Gwydyon realizara.
Havia um apelo ao Criador,
A Cristo por vantagens,
Até o momento em que o Eterno
Libertasse aqueles a quem fizera.
O Senhor respondeu-lhes
Pela linguagem e elementos:
Tomai a forma das árvores principais,
Arranjai-vos em ordem de batalha
E refreai a multidão
Inexperta na batalha mão a mão.
Quando as árvores foram encantadas,
Na expectativa de não serem árvores,
As árvores sussurraram suas vozes
De cordas de harmonia,
As disputas cessaram.
Interrompamos dias tristes,
Uma mulher refreou a grande desordem.
Ela chegou totalmente encantadora.
O cabeça da fileira, o cabeça era uma mulher.
A vantagem de uma vaca insone
Não nos faria ceder o caminho.
O sangue dos homens até nossas coxas,
Os maiores dos esforços mentais importunos
Realizados no mundo.
E acabou-se
Por refletir sobre o dilúvio
E sobre o Cristo crucificado
E sobre o dia do julgamento iminente
Os Amieiros, cabeça da fileira,
Formaram a vanguarda.
Os Salgueiros e Sorveiras
Chegaram tarde para o exército.
Ameixeiras, que são raras,
Indesejadas pelos homens,
As esmeradas Nespereiras,
Verdadeiros objetos de disputas.
Os espinhentos arbustos de Rosas
Contra uma multidão de gigantes.
A Framboesa refreou,
O que é melhor falhou
Para a segurança da vida.
A Alfena e a Madressilva
E a Hera na sua frente.
Como o Tojo, para o combate
A Cerejeira foi provocada.
A Bétula, apesar de sua mente elevada,
Atrasou-se antes que ele fosse enfileirado.
Não por causa de sua covardia,
Mas por causa de sua grandeza.
O Liburno tinha em mente
Que tua natureza selvagem era estranha.
Pinheiros no pórtico,
A sede da controvérsia,
Por mim grandemente exaltados
Na presença dos reis,
Os Olmos, com seu cortejo,
Não se afastavam um pé.
Ele lutaria com o centro
E com os flancos e a retaguarda.
Aveleiras, julgou-se
Que amplo era vosso empenho mental.
A Alfena, feliz a sua parte,
O touro da batalha, o senhor do mundo,
Morawg e Morydd
Tornaram-se prósperos em Pinheiros.
Azevinho, ele estava matizado de verde,
Ele era o herói.
O Espinheiro, cercado de ferrões,
Com a dor em sua mão.
O Álamo foi coberto,
Ele foi coberto na batalha.
A Samambaia, que foi saqueada,
A Giesta, na vanguarda do exército, nas trincheiras foi ela ferida.
O Tojo não se saiu bem,
Porém o deixou estendido.
A Urze foi vitoriosa, afastando em todos os lados.
O povo comum ficou encantado
Durante o tempo originando-se dos homens.
O Carvalho, movendo-se rapidamente,
Diante dele estremecem céu e terra.
Um valente porteiro contra um inimigo
Seu nome é considerado.
As Campânulas Azuis combinaram-se
E provocaram uma consternação.
Ao rejeitar, foram rejeitadas
Outras, que foram perfuradas.
As Pereiras, as melhores invasoras
Em tempo de conflito na planície.
Uma lenha muito colérica,
O Castanheiro é acanhado,
O opositor da felicidade.
O jato tornou-se negro,
A montanha tornou-se curvada,
As florestas tornaram-se um forno
Existente outrora nos grandes mares
Desde que foi ouvido o grito:
Os cimos da Bétula cobriram-nos com folhas
E transformaram-nos e mudaram nosso estado enfraquecido.
Os ramos do carvalho apanharam-nos numa armadilha
Do Gwarchan de Maelderw.
Rindo no lado do rochedo,
O senhor não é de uma natureza ardente.
Não de mãe, nem de pai,
Quando eu fui feito
Criou-me o meu Criador
De poderes nove vezes formados,
Do fruto dos frutos,
Do fruto do deus primordial,
De prímulas e florações da colina,
Das flores de árvores e arbustos.
Da terra, de uma trajetória terrena,
Quando eu fui formado
Da giesta e da urtiga,
Da água da nona onda.
Fui encantado por Math
Antes de me tornar imortal,
Fui encantado por Gwydion,
O grande purificador dos britanos,
De Eurwys, de Euron,
De Euron, de Modron,
De cinco vezes cinqüenta homens de ciência,
Mestres, filhos de Math.
Quando a remoção ocorreu,
Eu fui encantado pelo Guledig.
Quando ele estava meio queimado,
Fui encantado pelo sábio
Dos sábios, no mundo primitivo.
Quando tive um ser,
Quando a multidão do mundo estava em dignidade,
O bardo ficou acostumado aos benefícios.
À canção de louvor estou inclinado, que a língua recita.
Eu toquei no poente,
Dormi em púrpura.
Verdadeiramente estava no encantamento
Com Dylan, o filho da onda.
Na circunferência, no meio,
Entre os joelhos de reis,
Dispersando lanças não afiadas
Do firmamento quando vieram
À grande profundeza, dilúvios.
Na batalha haverá
Quatro vintenas de centenas
Que dividirão de acordo com sua vontade.
Eles não são mais velhos nem mais jovens
Do que eu mesmo em suas divisões.
Um milagre, Canhwr nasceu, cada um de novecentos.
Ele estava comigo também,
Com minha espada manchada de sangue.
Foi-me atribuída honra
Pelo Senhor e a proteção estava onde ele estava.
Se eu for aonde o javali foi morto,
Ele comporá, ele se decomporá,
Ele formará linguagens.
O radiante de mão forte, seu nome,
Com um raio ele governa seus números.
Eles se espalhariam numa chama
Quando eu tivesse de ascender.
Fui uma cobra malhada na colina,
Fui uma víbora no Llyn.
Fui um bico encurvado cortante,
Fui uma lança furiosa.
Com minha casula e tigela,
Profetizarei não erroneamente
Quatro vintenas de fumigações
Sobre cada um o que trarão.
Cinco batalhões de braços
Serão apanhados por minha faca.
Seis corcéis de matiz amarelado,
Uma centena de vezes melhor é
Meu corcel amarelo claro,
Rápido como a gaivota marinha,
A qual não passará
Entre o mar e a margem.
Não sou eu proeminente no campo do sangue?
Sobre ele está uma centena de capitães.
Carmim a pedra do meu cinto,
De ouro é a borda do meu escudo.
Não houve ninguém nascido na brecha
Que tenha estado a visitar-me,
Exceto Goronwy
Dos vales de Edrywy.
Compridos e brancos os meus dedos,
Faz muito tempo que fui um pastor.
Viajei na terra
Antes que eu fosse versado no conhecimento.
Viajei, fiz um circuito,
Dormi numa centena de ilhas,
Numa centena de fortalezas habitei.
Vós, inteligentes Druidas,
Declarai a Arthur
O que há mais antigo
Do que eu para eles cantarem.
E um veio
Da reflexão sobre o dilúvio
E do Cristo crucificado
E do dia do julgamento futuro.
Uma gema dourada numa jóia dourada.
Sou esplêndido
E ficarei livre
Da opressão dos ferreiros.

Tradução: Bellou̯esus Īsarnos

O Trono de Cerridwen (Kadeir Kerrituen)

Quando forem julgados os tronos,
Superando-os estará o meu,
Meu trono, meu caldeirão e minhas leis
E minha eloquência em desfile encontram-se para o trono.

“Livro de Taliesin”, 16

Soberano do poder do ar, também tu,
A satisfação de minhas transgressões.
Na meia-noite e nas manhãs
Ali brilhavam minhas luzes.
Delicada a vida de Minawg ap Lleu,
A quem vi há apenas um momento.
O fim, na rampa de Lleu.
Ardente era seu esforço nos combates,
Afagdu, meu filho, também.
Feliz o Senhor que o fez
Na competição das canções.
Sua sabedoria era melhor que a minha,
O mais habilidoso homem de que jamais se soube.
Gwydion, o filho de Dôn, de aspecto severo,
Com flores uma mulher formou,
E trouxe os porcos do sul,
Embora não tivesse chiqueiros para eles;
O viajante corajoso com varinhas achatadas
Formou uma cavalhada,
De primaveris
Plantas e selas ilustres.
Quando forem julgados os tronos,
Superando-os estará o meu,
Meu trono, meu caldeirão e minhas leis
E minha eloquência em desfile encontram-se para o trono.
Sou chamada habilidosa na corte de Dôn.
Eu e Euronwy e Euron.
Vi um feroz conflito em Nant Frangeon
Num domingo, no momento da aurora,
Entre a ave da fúria e Gwydion.
Na quarta-feira, certamente eles foram a Mona
Para obter rodopios e feiticeiros.
Arianrhod, de louvável aspecto, aurora de serenidade,
A maior desgraça obviamente no lado dos britanos,
Com pressa envia sobre sua corte a correnteza de um arco-íris,
Uma torrente que assusta a violência da terra.
O veneno de seu estado anterior em volta do mundo deixará.
Não falam falsamente os livros de Beda.
O assento do Preservador está aqui.
E até o julgamento continuará na Europa.
Possa a Trindade conceder-nos
Misericórdia no dia do julgamento,
Uma justa esmola para bons homens.

Tradução: Bellou̯esus Īsarnos

Os Espólios de Annwfn (Preiddeu Annwfn)

Na primeira palavra do caldeirão, quando pronunciada,
Pelo alento de nove donzelas foi ele gentilmente aquecido.

“Livro de Taliesin”, 30

Louvarei o soberano, supremo rei do país,
Que ampliou seus domínios até os confins do mundo.
Completo estava o cativeiro de Gweir em Caer Sidi
Graças à malícia de Pwyll e Pryderi.
Ninguém antes dele chegara até lá.
A pesada corrente azul prendia o jovem fiel
E ante os espólios de Annwn dolorosamente ele canta
E até o julgamento continuará um bardo de intercessão.
Três vezes o bastante para encher Prydwen, até lá fomos.
Exceto sete, ninguém voltou de Caer Sidi.

Não sou eu um candidato à fama se uma canção for ouvida?
Em Caer Pedryfan, quatro os seus giros.
Na primeira palavra do caldeirão, quando pronunciada,
Pelo alento de nove donzelas foi ele gentilmente aquecido.
Não é o caldeirão do senhor de Annwn? Qual sua intenção?
Uma saliência sobre sua borda de pérolas.
Não cozinhará a comida de um covarde que não tenha sido jurado,
Cintilando, uma espada brilhante para ele foi erguida
E na mão de Lleminawg foi ela deixada.
E diante da entrada do portal de Uffern a lâmpada queimava.
E quando chegamos com Arthur, um trabalho esplêndido,
Exceto sete, ninguém retornou de Caer Fedwyd.

Não sou um candidato à fama com a canção ouvida
Em Caer Pedryfan, na ilha da forte porta?
O crepúsculo e a escuridão de breu foram misturados juntos.
Brilhante vinho sua bebida ante o seu séquito.
Três vezes o bastante para encher Prydwen viemos pelo mar.
Exceto sete, ninguém voltou de Caer Rigor.

Não merecerei muito do soberano da literatura.
Além de Caer Wydyr não viram a bravura de Arthur.
Três vintenas de centúrias pararam no muralha,
Difícil era a conversa com seu sentinela.
Três vezes o bastante para encher Prydwen lá fomos com Arthur.
Exceto sete, ninguém voltou de Caer Golud.

Não merecerei muito daqueles com longos escudos.
Eles não sabem qual o dia, qual o causador,
Em que hora no dia sereno Cwy nasceu.
Quem fez com que ele não fosse aos vales de Defwy.
Não conhecem o boi malhado, larga a faixa de sua cabeça.
Sete vintenas de saliências em sua coleira.
E, quando viemos com Arthur de aflita memória,
Exceto sete ninguém retornou de Caer Fandwy.

Não merecerei muito daqueles com propensões relaxadas.
Eles não sabem em que dia o chefe foi originado,
Em que hora no dia sereno o proprietário nasceu,
Qual animal eles mantêm, prateada sua cabeça.
Quando fomos com Arthur do aflito combate,
Exceto sete, ninguém voltou de Caer Ochren.

Monges congregam-se como cães num canil,
Pelo contato com seus superiores adquirem conhecimento.
É um o curso do vento, é uma a água do mar?
É uma a centelha do fogo, do tumulto irrestringível?
Monges congregam-se como lobos,
Pelo contato com seus superiores adquirem conhecimento.
Eles não sabem quando a noite profunda e a aurora se dividem,
Nem qual é o curso do vento, ou quem o agita,
Em que lugar ele morre, sobre qual terra ruge.
A tumba do santo está sumindo do túmulo-altar.
Orarei ao Senhor, o grande supremo,
Que eu não seja desventurado. Cristo seja minha parte.

Tradução: Bellou̯esus Īsarnos